(baseado na liturgia do III Domingo da Quaresma, ano A)
A Quaresma costuma ser definida como um grande retiro espiritual de quarenta dias. Se a vida é uma correria barulhenta, este tempo é o silêncio necessário onde a liturgia da Igreja atua como a pregadora desse retiro. Ao olharmos para as Escrituras, não vemos apenas fatos passados; vemos o espelho de nossa própria alma.
A jornada do povo de Israel pelo deserto, narrada no Livro do Êxodo, é o retrato da nossa história pessoal. Imagine-se, por um momento, em uma situação de escravidão absoluta: um povo conquistando nossa nação, impondo trabalhos forçados, sem direitos, onde viveríamos apenas para servir aos nossos algozes. Clamaríamos por liberdade dia e noite, não é verdade? Pois foi exatamente isso que Deus fez por Israel e o que Ele faz por nós ao nos libertar do pecado. No entanto, o ser humano possui uma memória curta para a gratidão e uma voz longa para a murmuração.
Israel contemplou prodígios: as pragas do Egito, a abertura do Mar Vermelho, o maná caído do céu. Mas bastou o calor apertar e a sede chegar — uma realidade esperada para quem atravessa um deserto — para que o povo se voltasse contra Deus. A acusação era grave: "Deus nos trouxe aqui para morrermos?". Chegaram ao absurdo de dizer que a escravidão no Egito era preferível à sede da liberdade.
Quantas vezes agimos da mesma forma? No calor das nossas "sedes" (dificuldades financeiras, problemas familiares, crises existenciais), esquecemos os milagres que Deus já realizou em nossas vidas. A nossa tendência é a pressa e o julgamento; a de Deus é a paciência e a benevolência. Onde o homem vê um obstáculo seco, Deus faz brotar água da rocha.
Na vida espiritual, carregamos dois tipos de cruzes. Existem as cruzes ativas, que são os sacrifícios e penitências que escolhemos por amor a Deus. Mas existem as cruzes passivas: aquelas adversidades que não pedimos — o luto, a doença, a decepção. Estas são as mais difíceis, pois exigem uma maturidade que muitas vezes não temos, a de acolher os imprevisto da vida, a acolher dura realidade de que não temos o controle de nossa vida.
Frequentemente, quando as dificuldades apertam, surge o pensamento perigoso: "Será que vale a pena ser católico? Desde que comecei a viver mais mina fé, parece que os problemas aumentaram". É a tentação de querer trocar a liberdade dos filhos de Deus pela "segurança" da escravidão antiga. Mas precisamos lembrar: a Cruz não é o destino final, é o caminho. É por ela que Jesus nos dignificou e nos abriu as portas do Céu.
Você que está lendo estas linhas agora, talvez carregue um peso que ninguém mais vê. Quanta dor e sofrimento existe dentro deste coração? Dores menores e maiores, perdas que deixaram vazios, lutos que parecem não acabar, doenças ou decepções que te fizeram se afastar de Deus e da Igreja.
Gostaria de lhe dizer, com toda a sinceridade: estas linhas são para te ajudar a compreender que existem dores que fazem parte da vida ou da permissão divina. Deus não é a causa da sua dor, mas, em Sua bondade, Ele permite que sejamos provados para que nossa fé amadureça. Desde o pecado original buscamos sempre encontrar culpados. E sempre o culpado está fora. E muitas vezes, na ausência de alguém para culpar, é em Deus que depositamos a culpa.
Quem sabe hoje não é o momento de parar de olhar apenas para a cruz, para a ferida e para a adversidade? Quem sabe hoje é o dia de lembrar que, depois da dor e da morte, existe a alegria incontestável da Ressurreição?
Que esta Quaresma seja o seu momento de voltar. Deus não te espera com um julgamento, mas com uma bacia de água limpa na Confissão, pronto para lavar seus pés e retomar contigo o percurso rumo à terra prometida. O céu é o seu lugar, e a Igreja é a sua casa. Volte para o caminho que conduz a promessa de Deus para tua vida!
Por Pe. Alex Graminho Boardman, mestre em teologia, psicopedagogo, especialista em terapia cognitivo comportamental, especialista em teologia espiritual, licenciado em história, geografia e pedagogia.
Pároco - Paróquia Sagrado Coração de Jesus e da Natividade de Nossa Senhora.
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