Nós assistimos a final da copa do mundo de 2026 entre Espanha e Argentina com o grupo de jovens da minha igreja. E quando assistimos a uma final em que a nossa seleção não está, é quase inevitável pensar: “Como eu queria que o Brasil estivesse ali!”
É claro que os mais realistas logo respondem que a seleção provavelmente nem teria chegado tão longe: se não tivesse sido eliminada pela Noruega, talvez teria caído diante da Inglaterra. Ou, se, por um milagre passasse pela Inglaterra, quem sabe perderia para a Argentina.
Tudo isso pode ser verdade, mas a Copa do Mundo desperta algo que vai além da lógica: mesmo quando a equipe joga mal, a esperança insiste em sobreviver. No fundo, queremos acreditar que ainda é possível.
Talvez seja justamente por isso que as derrotas nos perseguem por tanto tempo. Depois de uma eliminação, voltamos mentalmente a cada lance decisivo.
E se aquele pênalti tivesse entrado?
E se o Endrick tivesse driblado o goleiro?
E se o Haaland tivesse sido marcado melhor?
As vitórias raramente produzem esse efeito. Poucos se lembram dos detalhes de uma partida vencida com tranquilidade, mas as derrotas nos fazem revisitar o passado em busca do momento em que tudo poderia ter sido diferente.
Acho que algo semelhante acontece quando lemos a Bíblia. Normalmente queremos lê-la como vencedores, quando, na verdade, deveríamos lê-la como perdedores. Essa era uma expressão que um professor meu do Seminário, Joel Okamoto, gostava de usar justamente para provocar um espanto seus alunos: “Read your Bible like a loser”, ele dizia, “Leia sua Bíblia como um perdedor.”
Pensa só.
· Quando Jesus diz: “Porque muitos são chamados, mas poucos são escolhidos” (Mt 22.14), com quem nossa imaginação se identifica? Quase automaticamente pensamos: “Eu sou um dos escolhidos.”
· Quando lembramos de Davi enfrentando Golias, quem imaginamos ser? Davi, é claro. Afinal, gostamos de acreditar que Deus nos dará força para vencer nossos gigantes.
· Quando lemos que o anjo anunciou a José: “Ela dará à luz um Filho e lhe porá o nome de Jesus, porque ele salvará o povo dele dos pecados deles” (Mt 1.21), imediatamente concluímos que somos esse povo.
· E, na parábola do trigo e do joio, quando Jesus diz: “Deixem crescer juntos até a colheita. E, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ‘Ajuntem primeiro o joio e amarrem em feixes para ser queimado; mas o trigo recolham no meu celeiro’” (Mt 13.30), nunca pensamos que somos o joio. Sempre nos colocamos entre o trigo.
Percebe o padrão? Ler a Bíblia como vencedor é imaginar que ela é, antes de tudo, sobre você! Mas deixa eu te falar bem claramente: você não é o centro de tudo!
Talvez isso aconteça porque a Bíblia também é um livro com histórias, e todo leitor tende a se identificar com algum personagem (curiosamente, quase sempre escolhemos o herói, o vencedor ou a vítima inocente).
O problema é que nós não somos Israel atravessando o mar Vermelho. Nós não somos Davi diante de Golias. Nós não somos os discípulos caminhando com Jesus pelas estradas da Galileia.
Aliás, essa percepção ajuda até a evitar um erro bastante comum: às vezes, alguns cristãos identificam automaticamente o Israel bíblico com o atual Estado de Israel, como se fossem exatamente a mesma realidade. Mas isso seria semelhante a alguém afirmar que faz parte do Império Romano simplesmente porque nasceu na cidade de Roma hoje. O nome não significa identidade bíblica e teológica. Não caiam nesta armadilha!
Mas voltando ao tema, eu reconheço que talvez tudo isso não seja muito agradável de ouvir, afinal, nosso ego prefere acreditar que tudo gira ao nosso redor. Gostamos da ideia de sermos os protagonistas da história da salvação. Mas, dá uma olhadinha no que diz o Salmo 135.
Pare esta leitura, abra a sua Bíblia e leia.
Há algo de assustador nesse salmo. O salmista afirma: “Tudo o que agrada ao Senhor, ele faz, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos” (Sl 135.6). Já parou para pensar no que significa isso de verdade? Deus faz o que quer e não precisa justificar suas decisões a ninguém. Deus não presta contas às suas criaturas. E o mais impressionante é que ele realmente tem poder para fazer tudo o que deseja, tanto coisas que nos parecem excelentes, quanto coisas que nos parecem terríveis!
Veja os exemplos que a Bíblia traz:
· Deus matou os primogênitos (muitas delas crianças) do Egito (Sl 135.8; Êx 12.29-30).
· Deus afogou o exército egípcio no mar (Êx 14.26-28; Sl 106.9-11; Sl 136.15).
· Deus ordenou a destruição de povos cananeus durante a conquista da terra prometida (Dt 7.1-2; Dt 20.16-18; Js 6.20-21; Js 10.40; Js 11.10-15).
· Deus matou Ananias e Safira quando mentiram sobre sua oferta (At 5.1-11).
· Jesus fez secar instantaneamente a figueira simplesmente porque ela não tinha frutos (e nem era época de frutos ainda!) (Mt 21.18-22; Mc 11.12-14,20-21)
· Deus derramou sua ira sobre seu próprio Filho na cruz (Is 53.4-6,10; Rm 3.25-26; 2Co 5.21; Gl 3.13; 1Pe 2.24).
Diante desse Deus, será que ainda faz sentido ler a Bíblia como se ela fosse uma história sobre nós? Será que realmente compreendemos quem Deus é quando nos colocamos sempre no lugar dos vencedores?
A verdade é que estamos completamente à mercê de um Deus soberano e todo-poderoso. Não existe nada que possamos fazer para controlá-lo, convencê-lo ou exigir explicações dele. Tudo o que podemos fazer é ouvi-lo, escutar sua Palavra.
Então a pergunta mais importante deixa de ser "Onde eu apareço nessa história?" e passa a ser: "O que Deus tem a dizer?"
Mas deixa eu continuar com o Salmo 135, porque nele encontramos uma resposta surpreendente:
“Pois o Senhor escolheu Jacó para si, Israel, para lhe ser propriedade peculiar” (v.4)
E mais adiante:
"Pois o Senhor julgará o seu povo e se compadecerá dos seus servos" (v.14)
Agora que sabemos que não somos esse Israel do Antigo Testamento, que não pertencemos ao povo que saiu do Egito nem à nação com quem Deus estabeleceu aquela aliança, que somos gentios, só nos resta uma constatação: “Como eu gostaria de fazer parte desse povo. Como seria maravilhoso receber essas promessas.”
Se você ficou com esta vontade como eu, me permita mostrar para você, perdedor, o que o apóstolo Paulo escreve em Gálatas 3.26-29:
“Pois todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos vocês que foram batizados em Cristo de Cristo se revestiram. Assim, não pode haver judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; porque todos vocês são um em Cristo Jesus. E, se vocês são de Cristo, são também descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa”
É aqui que ler a Bíblia como um perdedor muda completamente nossa perspectiva. Quando deixamos de nos colocar forçadamente entre os “heróis” da história, percebemos a grandeza daquilo que o amor daquele Deus soberano e todo-poderoso teve por nós.
Não éramos o povo da aliança, mas Cristo nos fez participantes dela. Não tínhamos direito às promessas, mas, pelo Batismo e pela confiança de coração em Jesus Cristo, fomos unidos a este Jesus que é o “descendente de Abraão”, e recebemos sua herança. Não fomos nós que vencemos a batalha, mas Cristo a venceu em nosso lugar.
Ler a Bíblia como um perdedor não diminui o cristão. Muito pelo contrário: coloca-nos exatamente onde Deus sempre quis que estivéssemos: de mãos vazias, sem mérito algum para apresentar, dependentes apenas da graça dele.
Quanto mais reconhecemos que não somos os heróis da história, mais claramente enxergamos quem realmente é O herói. A Bíblia é a história do que Deus fez por perdedores como nós em Jesus Cristo.
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