Nas últimas semanas descobrimos que o verbo “ensinar”, em Provérbios 22.6, é o hebraico חָנַךְ (Hanac), uma palavra que também significa “dedicar”. Vimos também que Deus chama pais e educadores a iniciar a criança no caminho que ele mesmo preparou para ela, conduzindo-a, desde cedo, a viver suas vocações à luz da Palavra.
Agora chegamos à parte do versículo que talvez provoque mais dúvidas:
“Ensine a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele.”
Será que isso é uma promessa absoluta? E, se meus filhos não quiserem seguir a no Caminho de Deus, quem falhou?
À primeira vista, parece se tratar de uma promessa absoluta, mas existe um detalhe importante: Provérbios pertence aos chamados livros sapienciais da Bíblia. Eles reúnem a sabedoria que Deus concedeu ao seu povo ao longo de muitos anos de observação da vida. São princípios verdadeiros, que descrevem aquilo que normalmente acontece, e não fórmulas matemáticas em que basta fazer uma coisa para, obrigatoriamente, receber outra.
O próprio livro de Provérbios mostra isso em diversos momentos.
· “A resposta branda desvia o furor” (Provérbios 15.1) é uma grande verdade. Ainda assim, às vezes alguém responde com mansidão e o outro continua furioso.
· “A mão diligente enriquece” (Provérbios 10.4) também é um princípio sábio, mas todos conhecemos pessoas trabalhadoras que enfrentam dificuldades por motivos que fogem ao seu controle.
Com Provérbios 22.6 acontece o mesmo. E até a própria Bíblia apresenta exemplos de pais consagrados que sofreram ao ver filhos seguirem outro caminho. É o caso de Samuel (1 Samuel 8.1-3), Davi (2 Samuel 13.1-22; 2 Samuel 15–18; 1 Reis 1.5-10) e Ezequias (2 Reis 21.1-16; 2 Crônicas 33.1-20), que foram homens que amaram ao Senhor, mas tiveram filhos que se afastaram profundamente da vontade de Deus.
Isso significa que educar os filhos na fé não faz diferença? Pelo contrário!
O princípio continua verdadeiro ainda que haja exceções. Via de regra, uma criança dedicada ao Senhor, conduzida pela Palavra, cercada pelo testemunho positivo da família, da igreja e da escola cristã, cresce com uma identidade muito mais sólida. Ela aprende desde cedo quem é, de quem pertence e para que foi criada. Mesmo quando enfrenta crises, dúvidas e tentações, a semente da Palavra continua acompanhando sua história.
Ao mesmo tempo, a Bíblia também ensina que Deus não transforma pessoas em robôs. Por mais contraditório que possa parecer, em seu amor, ele nos criou capazes de resistir à sua graça. Por isso, infelizmente, pode acontecer que pais tenham amado, ensinado, orado, dado bom exemplo, participado da vida da igreja e da escola cristã, e ainda assim vejam um filho se afastar da fé.
Se esse é o seu caso, este versículo não foi escrito para condenar você! Talvez você se lembre de cada culto para o qual levou seu filho, de cada oração feita ao lado da cama, cada fala positiva sobre irmãos da igreja e sobre o pastor, de cada conversa sobre Jesus, de cada esforço para que a fé também fosse vivida dentro de casa. Nada disso foi inútil. A Palavra de Deus nunca é desperdiçada. O Espírito Santo continua sendo capaz de alcançar aquele coração, hoje, amanhã ou muitos anos depois.
Ao mesmo tempo, Provérbios 22.6 continua sendo um chamado para todos nós. Pais, avós, padrinhos, professores e igreja recebem de Deus a bela vocação de semear sua Palavra na próxima geração com dedicação, amor e intencionalidade. Afinal, ninguém chega ao hospital encontrando sozinho o caminho (lembram da história da semana passada?). Quem ama mostra a direção.
É justamente isso que uma escola cristã procura fazer todos os dias. Caminhando ao lado da família, ela ajuda a dedicar crianças ao Senhor, para que conheçam a Cristo, cresçam em sua Palavra e descubram a alegria de viver nas vocações que Deus lhes concede.
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