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Segunda-feira, 08 de Junho 2026
Personagens da Cidade

A CENTENÁRIA EDYTH MATTES

Personagens da Cidade é um projeto em conjunto com o Portal Estância Velha Notícias e da Z Multi Editora/Revista MultiFamília

Sandra Hess
Por Sandra Hess
A CENTENÁRIA EDYTH MATTES
Sandra Hess
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01 # Personagens da Cidade

Olá! Sou Sandra Hess, jornalista e coordenadora editorial da Z Multi Editora. O Projeto Personagens da Cidade é uma realização conjunta do Portal Estância Velha Notícias e da Z Multi Editora/Revista MultiFamília. 

Completando 100 anos em 16 de janeiro de 2025, dona Edyth (Albertin) Mattes não tem segredo para sua longevidade. "Trabalhei muito a vida toda, isso eu sei", brinca. Conhecida em Estância Velha pela atuação na Ordem Auxiliadora das Senhoras Evangélicas (OASE), pelo alto-astral e pela sua presença na comunidade, dona Edyth vive há 39 anos na casa onde viveu com o marido, Léo Mattes.

Esta moradora centenária está plena de saúde e fala com alegria de sua família, de seu trabalho e de suas contribuições. Com a ajuda da filha, a médica Liane, refez sua linha do tempo — trazendo alguns episódios marcantes e mencionando, inclusive, o nome de algumas pessoas as quais conviveu. Antes da pandemia da Covid-19, tinha uma vida de ampla autonomia. Depois disso, devido ao fato de ter contraído o vírus e ao resguardo imposto na época, seu ritmo de vida diminuiu, mas com uma rotina saudável e praticamente sem restrições. Ao longo da conversa, uma torta de damasco e um chá de camomila era sorvido com muito gosto. Nem diabetes esta senhora simpática precisa se preocupar: o único cuidado que a família tem atualmente é com a sua mobilidade — uma vez que teve 3 quedas nos últimos anos que sinalizaram a perda do equilíbrio e um pouco da perda auditiva. Algo que é muito compreensível, afinal, o corpo vai envelhecendo com o avançar do tempo. Isso que já superou algumas doenças sérias, como a tuberculose na adolescência, além de pancreatite.

 

FILHA E NETA DE IMIGRANTES

A filha Liane conta que a mãe assumiu responsabilidades desde cedo, primeiro cuidando dos irmãos, depois, ajudando o marido. "Eu me lembro que a mãe era a última a deitar: comia pouco, dormia pouco e trabalhava muito". Nasceu em 16 de janeiro de 1925, na localidade de Vapor Velho, a 16 quilômetros de Montenegro, no Vale do Caí. Havia dois anos que seus pais, Reinoldo Albertin e Anna Glowatzki, tinham vindo da Alemanha. "Eles chegaram na segunda leva, em 1923, depois da Primeira Guerra Mundial”.

A família é forjada por desafios e muita resiliência. Em decorrência do falecimento do czar russo casado com a rainha alemã Vitória, os alemães que viviam nestas terras tiveram que abandonar por motivo político (nos registros, consta que o comunismo estava sendo implementado). Assim, os avós saíram da Áustria, foram para a Polônia e depois para a Ucrânia -, nomes dos atuais países. Aos 12 anos, a família de seu pai precisou ir para a Prússia Oriental. Eles voltaram a ter cidadania alemã e Reinoldo até lutou na 1ª Guerra Mundial. Terminada a guerra, os avós de Edyth resolveram imigrar para a América e chegaram ao Brasil, compraram um sítio pequeno em Cafundó, onde se instalaram com os filhos - um era professor e outro um pastor. Tinham pouca mão-de-obra. Os pais de Edyth vieram em seguida. Logo, Reinoldo disse que a área era muito pequena para sustentar todo mundo. Então compraram uma atafona em Vapor Velho. A farinha feita com a mandioca garantiu o sustento por um período.

- Minha avó era parteira. Ela trouxe eu e o Júlio. A Anita foi com o médico.

Devido ao sol forte, fato que não estava tão acostumado, o pai de Edyth mudou de negócio: da Atafona, abriu a Venda. "Vendíamos de tudo, do prego ao funcho e remédios. Também tinha a banha, item que ajudava a conservar a carne", relembra Edyth. A banha - reforça Liane - era o ouro da época. Mais  tarde, o pai plantou acácia-negra e bergamota, abriu um alambique e tinha eletricidade - algo incomum para a localidade.

Acontece que a mãe de Edyth, a Anna, voltou para a Alemanha quando Edyth tinha 14 anos. Sentia saudades do país de origem. Edyth ficou encarregada de cuidar dos irmãos, Anita (na época com 7 anos) e de Júlio (10). Eis que o período coincidiu com a 2ª Guerra Mundial. A mãe só veio a retomar 7 anos depois. Essa história é contada em um livro que a família lançou, com base nas cartas que a mãe escrevia.

Edyth lembra que na época da Venda, já havia concluído os estudos. "Eu tinha uma tábua de pedra para escrever". Trabalhando na Venda do pai, tinha muitos pretendentes. De repente, apareceu um viajante, o Léo Mattes. "Ele era um bonitão, tinha namorada em tudo que é canto. Namoramos por 7 anos até nos casarmos, em 1951". O pai de Edyth alugou um ponto e começaram um restaurante em Porto Alegre, na Rua Voluntários da Pátria. Anos depois, o marido e o sogro compraram uma empresa de ônibus e se mudaram para Estância Velha.

 

A OASE

Era dona de casa e com a sogra, se dedicou à OASE. Ambas foram presidentes da entidade, que chegou a ser a administradora do Hospital de Estância Velha com o envolvimento das 'schuesters'. “A primeira paciente foi Erica Mentz, o quarto foi mobiliado e um ventilador foi comprado". A sogra acabou vendendo a casa de saúde para a Prefeitura, a pedido de Victor Schuck. Na época da sogra, a Ordem construiu sua sede, em 1949. Durante seu mandato, Edyth assumiu o custeio das obras. "Lembro que a dedicação à OASE era total e levava a Liane junto", conta Edyth. Sua participação se encerrou tendo como vice-presidente a dona Diva Dienstmann.

Muitas ações comunitárias foram organizadas pelo grupo mas, diferente da atual época, eram pouco registradas, sendo que as informações sobre a contribuição da OASE junto ao município estão reservadas à memória de suas voluntárias. Mas, muito em decorrência deste amplo envolvimento, Edyth foi convidada pelo ex-prefeito Ernesto Dietrich a se candidatar a uma vaga como vereadora. Em 2005, também ganhou a placa “Mulher Destaque" da Câmara de Vereadores.

Para a filha de Edyth, viver 100 anos é um desafio. Ela vê sua mãe diante da perda das pessoas e que foram sua referência. Muitos já estão falecidos ou reduzindo o ritmo por conta da idade. Tinham dois grupos em que se reuniam semanalmente: uma na terça-feira na casa de Rivane Moraes e outro grupo de mulheres na sexta-feira, na casa de Arminda Hoff. “Mantemos uma rotina de passeios e visitas, mas não é a mesma coisa. Felizmente, ela tem os netos que pode acompanhar suas rotinas diariamente”, conta.

 

O PENTÁGONO

Nestas idas e vindas dos acontecimentos, chegamos ao Pentágono, um ponto central de Estância Velha - uma referência por quase duas décadas. Por conta da experiência que Léo e Edyth tinham com restaurantes em Porto Alegre e outro na praia, resolveram empreender com o mesmo negócio em um prédio construído na esquina das ruas Portão e Presidente Lucena.

Em sociedade com Bruno Frank e Léo Mattes, o prédio foi construído. A primeira parte foi concluída na década de 1970, permitindo a abertura do restaurante, lancheria e um ponto de vendas de viandas. Mais tarde, Valdemar Torres ficou encarregado do açougue. Léo começava a organização às 5h30 e Edyth entrava na cozinha por volta das 8h. Ali, comandava a rotina do restaurante. "Lembro que o Moraes pedia um bolinho de espinafre que era muito famoso na época". Outro produto muito consumido era o sorvete misturado com coca-cola, a famosa "vaca preta".

O Pentágono era uma referência de Estância Velha, aliás, o único restaurante da época. Enquanto tudo fechava no fim de semana, o restaurante estava aberto. "Sábado era feito carne de porco com batata-doce e chucrute", relembra Edyth. O repolho era cortado em fatias muito finas e preparado na noite anterior. "Lembro que dava muita louça para lavar", conta.

Apesar do sucesso do lugar, os sócios não conseguiram viabilizar o negócio como pretendido. Um problema reconhecido era que muitos custavam para pagar o fiado. Teve um caso em que o valor correspondia, nos tempos atuais, a uma casa. Também não havia um controle de gestão e produção tão rígido quanto na atualidade. “Ficamos 15 anos nesta rotina ".

- O Pentágono deixa saudades…

 

ROTINA

Edyth mantém uma rotina tranquila, como deve ser em sua idade. "Minha mãe gosta de ler o jornal, ajuda a secar louça e prepara as verduras para a sua cocção", conta Liane, que admira a saúde e a disposição da mãe. "Ela tem muita força. Fica sentada no sofá e já fez muito crochê", completa. Uma cuidadora está com ela para permitir uma rotina de cuidados. No final do dia, o neto retoma de seu trabalho e a neta sempre visita a vó, pois trabalha no escritório na frente da casa.

Questionada se acompanha o noticiário, Edyth comentou do investimento feito na entrada da cidade, junto à avenida Presidente Vargas, e da importância do destino de recursos para o hospital. Também falou das queimadas e da propaganda política que assistia na televisão. O Caderno de Emancipação, onde pode recordar de histórias de pessoas e lugares, também foram lembrados. O uso de celular não faz parte da rotina e diz que prefere "incomodar os netos e a filha", com um sorriso maroto. Ela percebe, no entanto, que as gerações mais novas evitam trabalhos pesados e não querem, por exemplo, sujar as mãos no jardim.

No final do encontro, tiramos uma foto para registrar a entrevista e na despedida, Liane afirmou:

- Minha mãe é abençoada. Precisa curtir os momentos. Ela esteve acostumada a cuidar dos outros -- na adolescência, cuidou dos irmãos, depois meu pai que sofria de neuropatia diabética, vindo a falecer em 2011, e da cunhada, que tinha deficiência auditiva. Mas agora é sua vez de ser cuidada.

* Em tempo: Edyth comemora seus 100 anos no dia 18 de janeiro com uma festa em salão reservado para os amigos e familiares.

Sandra Hess

Publicado por:

Sandra Hess

Jornalista e coordenadora editorial da Z Multi Editora.

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