02 # Personagens da Cidade
Olá! Sou Sandra Hess, jornalista e coordenadora editorial da Z Multi Editora. O Projeto Personagens da Cidade é uma realização conjunta do Portal Estância Velha Notícias e da ZMulti Editora/Revista MultiFamília.
O yoga é o seu referencial. Cristina Sonia Feilstrecker Bohn é instrutora de Yoga, acupunturista, além de fazer massagem energética. A cada aula, seus alunos identificam na “Cris” um exemplo de saúde, empatia, acolhimento e curiosidade, além de um imenso domínio da prática que mescla corpo e mente. É para deixar Estância Velha com orgulho! Aliás, o projeto Personagens da Cidade renasceu graças à sua habilidade de conectar pessoas. Assim como ela entende que é a vida: pura conexão.
Natural de Ivoti, Cris se mudou com a família para Estância Velha ainda pequena. Se instalaram no Bairro Floresta, onde sua mãe Isolde Elvira Feilstrecker vive até hoje, aos 87 anos de idade. Ali, enfrentou diferentes desafios – alguns grandes demais para sua tenra idade. Casada com João Luis Bohn, é mãe de Vinicius Feilstrecker Bohn (que mora em Feliz), Nicolas Feilstrecker Bohn (está na Arábia Saudita), Natalia Feilstrecker Bohn (está em Dublin) e Vitória Feilstrecker Bohn (vive em Florianópolis). É avó de Oliver (in memoriam) e Otto Lenhardt Bohn, filhos de Vinícius e Monique Lenhardt.
Os desafios que a vida te impõe
Mais de uma vez, Cris viveu perdas duríssimas, a primeira delas foi o irmão Cristiano. A família se recuperava deste luto quando veio mais um grande sofrimento. “Quando completei 11 anos, parei de estudar na quinta série para ajudar a cuidar dos irmãos mais novos, algo comum para a época. Em 26 de maio de 1978, a nossa casa queimou com meus quatro irmãos dentro”.
Cris conta que a mãe estava nos fundos de casa, pois costumava trabalhar no cultivo da terra e fazia aqueles enfiados de calçados para ateliêrs. “Eu estava no quarto dos fundos e eles no quarto da frente. Era cedo da manhã, um outono seco, e estávamos dormindo”, relembra.
Cris revive a cena, algo que influenciou a busca do Yoga anos mais tarde. “A casa estava em chamas por dentro. Por fora não se via nada. As janelas eram por fora, e até hoje tenho uma cicatriz no punho. Fui para o hospital e medicada, mas antes eu me escondi na roça”.
No dia 1º de julho, pouco mais de um mês do ocorrido, recém completados 12 anos, Cris começou a trabalhar na Calçados Jade, das 7h às 18h. Ainda fazia o Ensino Confirmatório nas quartas-feiras à tarde, então, ganhava licença para frequentar a doutrina e depois voltava para o trabalho.
Com 14 anos, retomou os estudos à noite, fazendo a sexta série. “Não foi fácil”. Cris repetiu algumas vezes de ano até concluir o Segundo Grau (Ensino Médio). Assumiu uma vaga no Banco Bradesco. Casou com João e teve 4 filhos. Primeiro os meninos, depois, as gêmeas. “Mesmo usando DIU, engravidei, e foi um susto”. João recém havia aberto um negócio e Cris trabalhava das 7 às 18h. Contou com o suporte dos sogros, da mãe e de Saionara. Quando as meninas completaram 2 anos, o Yoga entrou na sua vida. “Aquilo era o meu remédio. Não queria tomar medicação. Aquela hora era o suficiente para me ajudar”.
ÁUDIO: Confira uma parte da conversa que Cris fala sobre: Dores, Desafio, Yoga, Conexão, Autoconhecimento: https://on.soundcloud.com/ggg4cGudyVAgkKHn7
Desafios vêm com endereço certo
Sua instrutora foi Dulce Barbiéri. Quando tinha completado 4 anos de prática, um grupo de amigas a convidou para fazer um estudo do Yoga em Porto Alegre. João deu suporte para cuidar das crianças, o que facilitou a rotina de frequentar as aulas uma vez por mês, no final de semana, por 4 anos.
Cris conta que se questionava porque não havia morrido com os irmãos. Frequentou o Centro Espírita e o Seicho No Ie, e depois, estudou a medicina tradicional oriental. “Me realizei assim. Quando eu vejo alguém com dor, me questiono o que aconteceu. E penso que se o desafio veio, veio com endereço certo. Precisamos aceitar e resolver”, pondera.
Para Cris, todos nós temos uma missão. “Nascemos para amar, servir, aprender e voltar para a nossa casa”. O Yoga conseguiu dar esta resposta. “Yoga é esta conexão com tudo, as nossas mentes se comunicam, a gente é um todo, não um indivíduo, nem só carne. É um espírito que habita numa vestimenta que adquiriu por algum tempo e depois devolve para a terra”.
VÍDEO: Depois de concluída a conversa, gravamos um vídeo. Confira aqui: https://youtube.com/shorts/fmXq-JSevF8
Uma força que move tudo
Cris entende como é importante encontrar forças para seguir adiante. “Em algum momento, podemos precisar de medicamentos, antidepressivos, por exemplo. No meu caso, eu precisava de outro suporte. Achava que a vida não era só trabalhar, que existia algo maior. Esse algo maior para mim é Deus. A gente pode chamar como preferir, criador, mestre, Luz. Existe uma força que move tudo isto”.
Falando em “conexão”, Cris enfatiza: “Somos um só. No momento em que percebemos isso, te dá um estalo. Eu tenho que estar bem para o outro estar bem. E tentar não julgar, olhar para o outro para ver qual a dor que carrega, qual a missão”.
Cris lembra que a respiração é o fio condutor na relação do corpo e a mente. Uma maneira de exercitar a respiração é através da meditação, “que te faz estar presente. Tu não precisa parar para meditar, basta estar com a atenção plena naquilo que está fazendo. Sempre digo para meus alunos: deixe as tuas preocupações lá fora e foca no que tu está fazendo”.
Vigiar os pensamentos

Durante a pandemia, a nora Monique estava grávida e na 20ª semana, quando fez a ecografia morfológica, verificou-se que o neto Oliver tinha uma hérnia diafragmática, afetando o coração e o pulmão. “A gestação foi muito difícil desde que descobriram. Eles buscaram alternativas, mas quando ele nasceu, foi um verdadeiro campo de batalha. Oliver sobreviveu por 4 dias. Não pudemos vê-los e chorávamos por telefone. Foi muito triste reviver a morte. Me pergunto porque o Vinícius e a Monique tiveram que viver esta guerra, porque Oliver, tão pequeno, precisou respirar com respirador artificial, receber soro, enfrentar uma cirurgia”.
Cris continua: “Penso na minha mãe também. Quando a casa queimou, eram 4 crianças, a mais nova tinha 5 meses e ainda mamava. Não sei como teve forças e de onde tira esta força hoje ainda”. Segundo Cris, estes desafios e o convívio com o outro requerem sempre um “vigiar os pensamentos” para se manter saudável.
“A vida é tão simples”, reforça. “Quando temos uma dor, é preciso investigar. Se estou com um calo e ele não diminui, procura ajuda médica. Não prolonga esse processo. Temos um sistema autoimune que faz este combate. Se não temos vontade de curar, esta dor vai se prolongar”.
Ao ser questionada o que é preciso para viver bem, Cris responde de bate-pronto: são 3 tipos de alimentação. “Temos a alimentação física que entra pela nossa boca e quanto mais natural, menos industrializada, melhor. Por isso, evite refrigerante, cigarro, bebida alcóolica. Prefira frutas da época, do verdureiro perto de casa. Se conseguir cozinhar com a tua energia, sabendo que vai te dar vigor e força, ótimo. Temos também a alimentação que vem da respiração. Muitas depressões acontecem pela má respiração. E a outra alimentação é a dos afetos: como eu me relaciono com as pessoas? Como cuido de mim, das minhas amizades? Ou só cultivo relações líquidas, superficiais? Anos atrás, se tu te mudasse, os vizinhos vinham se apresentar, conversar. Agora nós estamos nas redes sociais, que pode também nos aproximar. Graças à tecnologia, consigo me comunicar com meus filhos que moram longe. Posso crescer, me fazer presente na vida dos outros. Mas, claro, a presença é muito melhor. A energia é diferente”.
As primeiras aulas
As primeiras alunas foram com as irmãs Greici e Sabrine Maurer, em 2006. A aula era na sala e Cris precisava recuar os móveis. “Tenho uma enorme gratidão a elas”. Prestes a completar 19 anos ministrando as aulas, Cris conta que tudo foi um processo de aprendizado e de observação. “Hoje eu olho o aluno, vejo sua respiração, o músculo que está ativando, e sempre lembro que é preciso estar presente, evitar o desconforto, buscar sentir cada movimento”.
Ser um “Personagem da Cidade” significa o que para Cris? A resposta veio com um belo exemplo:
- Eu procuro ser um bom referencial. Temos médicos, professores, pais, filhos. Estes referenciais são importantes na nossa vida. Precisamos de referenciais na esfera política e religiosa. Acredito que as pessoas podem ser influenciadas de maneira a tornar o outro melhor. E eu gostaria de ser um bom referencial. Ao menos para meus alunos eu sei que sou. Percebo que eles sentem a necessidade deste momento. É uma vivência interna. O yoga é isso. Fecha os teus olhos e sente o teu corpo.
O yoga é uma vivência muito praticada. Não tem restrições de idade. “Todo mundo pode fazer. Se tem limitações, a gente faz ajustes. Procuro saber até onde o aluno pode ir e o aluno também precisa saber que yoga precisa ser algo bom, confortável, porque acima de tudo yoga é autoconhecimento.”
Ao final da conversa, fizemos algumas fotos e um vídeo. Dias depois, Cris pediu para compartilhar um pensamento que a inspira: “Deus, conceda-me a serenidade para aceitar aquilo que não posso mudar, a coragem para mudar o que posso e a sabedoria para discernir entre ambos.”